09 Novembro 2009
O modorrento campeonato de pontos corridos
Então estamos a quatro jogos do fim de mais uma edição do Campeonato Brasileiro por pontos corridos e eu me pego aqui pensando como é pública e notória a aversão a esse tipo de disputa por parte de qualquer torcedor que se preze. Até mesmo entre os leonores - grandes beneficiários da fórmula, já que todos os argumentos utilizados para justificar tal europeização babaca do esporte batem com as mentiras propagadas pelos bambis quanto sua "organização e modelo administrativo" - existe gente esclarecida que, apesar do desvio clubístico, gostam e defendem as coisas acontecendo da maneira mais honesta possível.
O Corinthians, por exemplo, entrou em campo no último domingo para não fazer nada. Os vagabundos resolveram, por conta disso, jogar um pouquinho de bola e, talvez, compensar os extorsivos R$30 de arquibancada que deveriam custar um sexto desse valor. Relação de mercado com a nossa razão de viver à parte, ao final da rodada a tabela nos mostra a 10 pontos do líder, o que leva qualquer corinthiano se indignar com os 11 pontos perdidos em casa de maneira imbecil e displiscente.
Vejam que, sem nenhum esforço, o Timão poderia estar hoje com uma mão na taça. De saída, isso elimina aquele negócio de "justiça" e "do melhor sempre ganha" que vendem como essencial para determinar quem é campeão. Tenho para mim que um título é a conjunção de diversos fatores e a graça do futebol é a certeza de que nem sempre o melhor vence, ressaltando também que a definição de melhor é bastante subjetiva. A partir dessa constatação, vamos usar o gol como ápice do esporte e, portanto, deveria ser fator determinante ou prioritário para estabelecer o tal melhor nos pontos corridos. Pois bem: o grêmio, até agora o melhor ataque da edição 2009 com 59 gols marcados, ocupa apenas a 9ª colocação. Onde está a justiça?
Os pontos corridos, grosso e injusto modo, são a reunião de certa casta cujo critério de seleção é o poder econômico, e seus membros se revezam nas vitórias numa espécie de política do café-com-leite que vigorou nos primeiros anos republicanos deste Brasil. Por outro lado, as finais são nada mais do que a democratização pura e simples. É a CLT, é o povo se equiparando à elite e tendo chances reais de se sobrepor pela vontade, pela raça e pela valorização da alma e seu orgulho de ser povo.
Afora a ideologia, há outras questões em jogo. O atual tri-campeão do troço vem sendo beneficiado, desde 2007, em partidas com poucos holofotes - confira os dossiês aqui e aqui. É um pênalti não marcado contra um time do nordeste aqui, um gol impedido (na verdade foram vários) contra um paranaense ali, uma expulsão não dada acolá e, quando nos damos conta, os pontos se acumulam exponencialmente na tabela. Em contraposição, se um juiz errar, propositalmente ou não, num confronto direto, ele e a referida mãe serão lembrados por décadas...
Enfim, meus caros, a fórmula modorrenta de pontos corridos é uma bela desculpinha para que a modernização nociva chegue com mais força às terras tupiniquins e se espalhe como uma praga pelo ideário do torcedor. Não vou nem apontar incoerências como a defesa e a legitimação desse tipo de disputa pela mídia golpista, ao mesmo tempo em que ela exalta Libertadores, Copa dos Campeões da Europa e Copa do Mundo, todos eles campeonatos no sistema mata-mata. Afirmo categoricamente, porém, que os malditos pontos corridos forçam times como Bahia e Santa Cruz passarem por maus bocados e avaís e barueris da vida serem louvados.
Voltando ao nosso umbigo, o corinthiano pode imaginar o time jogando o que jogou na última apresentação e chegando numa quarta-de-final justamente contra a freguesa? Como não seriam interessantes essas partidas? Pelo contrário, os pontos corridos são tão nocivos que institucionalizam o anticorinthianismo ao incentivar nossa torcida a cogitar abrir mão da vitória contra o rubro-negro carioca ou contra o galo mineiro só para evitar alegria a rivais ou inimigos.
Não seria muito mais decente se tudo isso fosse resolvido dentro das quatro linhas?
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Em tempo: tive de ler e escutar muita gente me chamando de louco por conta da indignação com a arbitragem no último clássico, principalmente no pênalti não assinalado em Dentinho que EU VI NO ESTÁDIO. Tive a calma necessária e afirmei que, apesar do assalto em Prudente/MS, não jogamos o necessário para vencer o clássico porque era preciso mais dedicação, inclusive contra o apito. Abro espaço para quem me julgou há uma semana reconhecer, primeiro, que o Corinthians fez sua parte e contribuiu e muito para que o cachorro continuasse mijando no poste e, segundo, que ditados populares são sábios: nada como um dia após o outro.
Sobre a "organização" que prometeram com os pontos corridos, o Barneschi desmente essa balela com sua corriqueira genialidade.
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07 Novembro 2009
Leituras do fim de semana
Post rápido com sugestões de leitura imperdíveis, antes que você saia para tomar as devidas cervejas que esse calor maravilhoso pede:
- O PCdoB realiza nesta semana seu 12º Congresso e na última sexta contou com a ilustre presença do presidente Lula. Em seu discurso, ele mencionou o apoio do partido ao governo, ressaltando o espírito de unidade na luta contra os golpistas, além de mandar respostas definitivas a um certo compositor baiano ("Ioiô, você exalta a Bahia porém nunca mais por lá ficou/E deu pra falar mal do Rio morando aos pés do Redentor") e a um ex-presidente desacreditado. Confira também a má-intenção das declarações do tal subperonismo desnudada pelo Azenha.
- No papo das arquibancadas, é imprescindível ler o que o Filipe escreveu, já que o texto reforça ainda mais nossa campanha FORA SANCHEZ!. Outro texto obrigatório é o "Mulheres no estádio de futebol", do Edu Goldenberg. Acrescento à "turma" do post aquele bando de babacas andróginos (meninos e meninas) que vai ao estádio para ficar tirar fotos com o celular em poses comprometedoras e fazer social. Estão, de fato, acabando com o futebol, pelo menos o futebol do jeito que ele tem que ser...
- Bruno Ribeiro entrevista Benito di Paula, de quem já falamos por aqui. Papo fantástico.
06 Novembro 2009
Sonhei com ela
Faz menos de um mês que ela foi embora. Mais que uma muleta para todos que ficavam debaixo da sua aba, ela se tornou uma referência natural. "O que ela faria nessa situação?" era o que eu quase sempre pensava. De fato, era bom ter duas mães, principalmente depois que eu "matei" meu pai.
Confesso que ainda não me caiu a ficha. Quinta-feira à noite. No milésimo de segundo após o susto, me veio nitidamente nos ouvidos aquela porcaria de música do Abba que ela tanto gostava e a imagem da dancinha com as mãos postadas na altura da cintura, como que se estivesse segurando uma corda de pular. Creio até que ficha só vai cair daqui algum tempo. Outro dia mesmo me peguei discando o número dela para perguntar algo. Vai entender...
Até que, nessa noite, eu sonhei com ela. Um sonho confuso, numa casa desconhecida. Ela apareceu daquele mesmo jeito de sempre, comendo aquela pururuca comprada no posto de estrada. Abracei-a como nunca e, quando começava a chorar, ela me pediu que parasse porque isso não ia ajudar nem a ela e nem aqueles que ficaram. Sequei como um deserto, ganhei um beijo na testa e o sonho acabou.
Hoje eu acordei pesando uma tonelada a menos. Para o caralho o inconsciente! Era ela e pronto.
04 Novembro 2009
Hora da Patrulha
Em meio a tanta polêmica que todo clássico tem e deve ter, numa coisa corinthianos e palmeirenses que se dignaram em ir até Presidente Prudente/MS concordam: além de longe como um quê, é inexplicável a quantidade e o preço dos pedágios na rodovia Castello Branco. Tudo bem que a estrada está em boas condições, mas isso não justifica os valores exorbitantes cobrados pelas empresas que a administram. São dez praças, ida e volta, e um rombo de R$77,40 no bolso.
A culpa, logicamente, é do modelo privatista - para não dizer entreguista - das últimas quatro gestões estaduais, todas elas sob as asas do PSDB. E aí os sem-argumentos virão com as pedras na mão, berrando: "ah, mas o teu Lula 'privatizou' a Fernão Dias!" Não, energúmeno! Nas federais ocorreu a concessão, de fato e de direito, com tarifas muito mais baixas que as estaduais paulistas. Para fins de comparação, vamos utilizar as duas estradas supracitadas. A Castello Branco tem 315km de extensão, dez pedágios e custa R$4,06 por quilômetro. Já a Fernão, no trecho duplicado entre SP e BH (para ficarmos nos mesmos parâmetros), contará com 7 praças custando de R$1,10 cada uma, ao longo dos 586km. Não precisa nem fazer a conta...
Enquanto essa "competência" para gerir o transporte não é debatida e tampouco contestada, aqui na capital o furdunço continua com as obras na Marginal Tietê. Certo dia, pelo Twitter, o @viniciusduarte definiu bem: é como se a Sabesp alargasse os dutos para que saia mais água na torneira da sua casa. Até mesmo figuras ilustres, como o jornalista Ricardo Kotscho, andam acreditando nas balelas da propaganda demo-tucana e ninguém explica o porquê dessa grana toda não ter sido aplicada, por exemplo, na construção de novos corredores de ônibus pela cidade.
Para refrescar a memória dos maravilhados com o choque de gestão, por que não mencionarmos os pedágios no Rodoanel, decisão totalmente contrária à proposta inicial feita pelos próprios tucanos e que conseguiu a proeza de congestionar a via? Ou então as novas paradas de cobrança na Rodovia D. Pedro I, que corta o interior paulista? Ou ainda o assalto que é pegar a Imigrantes para chegar à Baixada Santista?
Crer cegamente no que os bicudos falam no rádio, na TV e no jornal da ditabranda é validar imbecilidades como esse tal reajuste dos professores, que garante salários de R$7 mil daqui 12 (!!!!!) anos. Qual meritocracia - tucano adora essa palavra - e política salarial decentes incentivariam o cara a largar a sala de aula e estudar, só para ir bem na suposta avaliação e conseguir atingir um teto da categoria que daqui 12 anos já estará defasado? Isso se justificaria somente se a intenção fosse tratar a educação como mercadoria, tal qual defende o atual secretário da pasta e tal qual manda qualquer determinação desse governo.
Finalizando, deixo um belo mosaico que comprova o quanto se gasta no caminho à terra esquecida por Deus. Além de enviar essa conta para os mandatários Sanchez e Belluzo, ofereço a obra de arte como presente ao governador, que, dizem, foi à Turquia com uma sub-prefeita paulistana, talvez em lua-de-mel...
Sorria, São Paulo.
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03 Novembro 2009
Decifrando mensagens
As palavras dos mandatários de Corinthians e palmeiras garantem: em 2010, o clássico entre as duas equipes acontece na capital. Diante de outro fracasso de público no último confronto, realizado em Prudente/MS, tampão e o professor mudaram rapidamente seu discurso e o que antes era ótimo e rentável virou "situação excepcional".
Notem que tanto um quanto outro não mencionam o prejuízo dos bandidos marginais que, no meio de um feriadão de sol, se dispuseram a viajar mais de mil quilômetros - 1.200km, para ser exato, como bem frisa o Barneschi - para assistir a um jogo aquém do histórico épico do derby, muito por conta dos 40º que fazia naquela cidade de merda e do sol das 15h. A preocupação dos dirigentes não é com quem os sustenta jogo após jogo, faça chuva ou faça sol, vendo craque ou perna-de-pau.
O tampão, por exemplo, jogou a bronca nas costas do Fiel Torcedor. Porém, todos sabemos que os reais motivos vão além dos números do nosso cambista oficial. Os problemas que o esvaziamento do clássico podem trazer na comercialização de diversos "produtos" (um cuspe) relacionados ao Coringão e ao próprio jogo são exemplos que podem acabar prejudicando inclusive as famosas comissõezinhas. O associado do Fiel Torcedor quer saber mesmo é quando irão baixar os preços nesse Brasileiro que já não vale mais nada.
À margem desse vergonhoso jogo de cena, é preciso que a gente sempre se lembre daquelas reuniões e cortejos ao pessoal do jd. leonor, a fim de manter no ar a apreensão. Sanchez mencionou a realização da partida no Pacaembu, mas o diretor de marquetim cogitou a volta ao panetone dias atrás. Belluzzo, por sua vez, afirmou, enigmático, que "A torcida do palmeiras, por exemplo, vai ao Pacaembu, mas não vai ao morumbi, que é um estádio rejeitado pelos torcedores palmeirenses, não sei por quê". A declaração poderia ter acabado antes do "não sei por quê" destacado, fosse a decisão de não jogar mais no privadão algo em que se pudesse confiar.
Consideremos, portanto, todas essas declarações cifradas dos dois presidentes envolvidos como um descaso muito grande com a história, a torcida e as tradições dos clubes que administram. E os que foram à cidade de merda hão de concordar: aquilo ali não tem um milésimo da atmosfera de um Corinthians x palmeiras em SP.
Amanhã, um post sobre os gastos com pedágio, misturando futebol e a famigerada Hora da Patrulha.

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02 Novembro 2009
Enquanto houver Prudente...
... haverá tabu. É simples. Jogar naquela merda significa não ganhar do porco. Pior ainda é não ganhar sendo garfado, e a indignação é maior por ter que viajar até o Pantanal para ser roubado. Vale lembrar aos incautos que passamos o primeiro semestre inteiro escutando inúmeras acusações de desavisados verdes falando do "esquema" para ajudar a gente. A causa era simples: ganhamos o Paulistão invictos e a Copa do Brasil mais uma vez. Para o espírito carcamano, isso faz arder cotovelos. E a gente ficou na nossa, esperando esse jogo para ir à forra. Ao ver o Corinthians dominando as ações, o tal Héber, que vive a nos prejudicar, seguiu apenas sua ideologia anticorinthiana...
No entanto, indignação total é estar naquela bosta de estádio daquele lixo de cidade. Não queiram saber os amigos de arquibancada quão ruim é estar ali. Não há nada de Corinthians. A caipirada vai lá para fazer festa ao invés de torcer. E eu, obviamente, resolvi pagar na mesma moeda. Xinguei o Gordo maldito - não é por que ele fez 2 gols que eu vou desconsiderar o fato dele ter perdido meia dúzia de bola e dado contra-ataques, além de sua paralisia dentro de campo - durante os 90 minutos e causei certo mal-estar entre os pé-vermeios que torcem para o Ronaldinho FC.
Para se ter uma idéia de como são descompromissados esses filhos da puta, os Gaviões da Fiel prepararam uma bela presença. Fazia parte do furdunço alguns rolos daqueles que se esticam por toda a arquibancada. Não é que os comedores de capim resolveram baixar as faixas porque "não dava para ver o jogo"? Não demorou dois minutos e um grupo de playboys do mato começou a tomar sacos de gelo nas costas. Vitória do povo!
Hoje chego em casa e vejo o tampão dizendo que ano que vem o clássico será no Pacaembu. Ele deve ter percebido que os 18 mil presentes, com ingressos a R$50, não pagariam nem a pousadinha que serviu de hospedagem ao time - em Prudente/MS, qualquer bosta com cama e chuveiro na parede é considerado hotel. Espero que isso seja cumprido, pois, caso contrário, me disponho a tomar ações mais contundentes, como lançar sacos de bosta sobre o carro do mandatário quando ele estiver saindo de sua sala ar-condicionada do Parque São Jorge.
Sobre a partida - jogamos bem, mas não jogamos o suficiente para o clássico. Tivéssemos nos portado dessa maneira diante de lixos como a mentira verde do Planalto e a brisa paranaense, estaríamos na disputa do título. No entanto, três coisas valem o destaque: 1) zaga que se preza não toma dois gols do jeito que tomamos; 2) o pênalti não marcado no Dentinho foi algo inacreditável; 3) o Felipe falhar DE NOVO contra o porco é coisa para ser expulso do Timão. Rivellino, por muito menos, foi escorraçado. Perdoem os "torcedores comuns" que adoram esse comedor de acarajé mau-caráter, mas é necessário alguém muito melhor que ele para a próxima temporada, alguém que nem está tão longe, diga-se. Tem dois logo ali, no banco de reservas...
Pra finalizar: CADÊ O GOBBI PRA DAR O MEU DESCONTO NESSES ÚLTIMOS JOGOS?

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30 Outubro 2009
Sangue nos olhos, Corinthians!
O feriado também se aplicará a este blogue a partir de hoje e até terça-feira, período em que estaremos no Pantanal para acompanhar, vejam vocês, um clássico paulistano. "O" clássico, aliás, a maior rivalidade do mundo, que, por culpa do conluio das diretorias de Corinthians e porco, foi tirada de sua cidade de origem - e lá se vão dois anos.
Apesar de se tratar do jogo do semestre, é muito difícil ir a Prudente/MS sentindo o que se deve sentir antes de uma partida como essa. A gente já imagina os 700 km de distância, aquela caipirada boba que só vai ao estádio para fazer festinha e proferir imbecilidades, a falta de compromisso dos próprios jogadores por não estarem sob a pressão devida e fica bastante preocupado... Como diria Edil, a besta, "a senhora não sabe o que é um parmera e Corinthia".
Que esses bostas, assim como os torcedores, compensem a pífia apresentação do primeiro turno. Se for preciso, quebrem pernas, chutem cabeças, façam o diabo. Mas saiam de lá com a vitória sobre o rival, porque isso é uma dívida moral com a Fiel Torcida. Vistam, de fato, o Manto Alvinegro e se impregnem de corinthianismo antes de entrar em campo.
Como preparação, deixo aqui novamente o vídeo que me foi enviado pelo Filipe. Uma tarde inesquecível para todo corinthiano.
VAI CORINTHIANS!

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29 Outubro 2009
Tapa na cara da Fiel
Às vésperas do jogo mais importante do segundo semestre, a diretoria do Corinthians deu outro tapa na cara da Fiel Torcida. De maneira maquiavélica, esperou uma vitória para anunciar o golpe já sugestionado e mastigado na mídia há tempos, e que diz respeito ao preço dos ingressos na Libertadores do Centenário. Entre as principais incoerências, a principal é saber que o Time do Povo vai custar a seu torcedor R$50 por partida, no mínimo. Tudo em prol do bizines e da modernidade injustificáveis que afrontam os que construíram toda nossa história de caráter popular e revolucionário.
Ainda assim, tratemos de bizines. A previsão é de R$3 milhões de renda por jogo, obtidos a partir da faixa de preços que varia dos já citados R$50 até R$500. Na primeira fase, são R$9 milhões brutos, quantia ínfima se pensarmos numa outra alternativa popular, inclusiva, democrática e que, primordialmente, não criasse essa dependência de venda de ingresso. Há 30 milhões de corinthianos pelo Brasil. Usando como base, sei lá, uma taxa de conversão padrão das campanhas de mídia da internet (algo em torno 1% do número de cliques em banner convertidos em venda), suponhamos que o título do clube custe R$300, em dez vezes. Seriam 300 mil corinthianos se associando, pagando R$30 por mês e gerando o mesmo montante de R$9 milhões. SÓ COM A COMPRA DO TÍTULO.
Ganha o Corinthians uma fonte de recursos que, posteriormente, induziria a uma renda fixa com a taxa de manutenção, e ganha o torcedor, que teria a possibilidade de participar politicamente no Corinthians e não seria assaltado toda vez que coloca sua cara na frente da bilheteria. Ou alguém aqui não estaria disposto a pagar R$300 em dez vezes e R$50 de mensalidade? Só que tem um probleminha: fatalmente, a corja teria de se explicar a todos esses 300 mil corinthianos e iria perder muitas boquinhas ali dentro. Dessa forma, é impossível pensar no óbvio quando se trata desses imbecis das salas ar-condicionadas do Parque São Jorge.
Existem ainda outras contradições nesse processo de elitização. Por que raios o ingresso do Brasileirão modorrento não baixou ainda? Segundo a lógica de mercado, estabelecemos valores do - perdão pela expressão - "produto" de acordo com a qualidade. Assim, pelo que andam apresentando Gordo e cia., nada mais justo que pagar uns R$5, só de caridade, para assistir a esse bando de vagabundos em férias remuneradas. Outro ponto: o tampão vem a público dizer que a torcida não pode tratar a Libertadores como obsessão (no que eu concordo), mas aí o cara se contorce todo para fazer uma graninha lazarenta num torneio cuja credibilidade garante atropelamento de fase por conta da gripe suína.
A caminho de Prudente, e com o prejuízo estimado em uns 300 conto nessa viagem até o Pantanal, vou encarar os 700km matutando sobre como dar conta de pagar, além dos jogos que faltam neste 2009, o cambista oficializado da Libertadores. Eu, que só não fui no jogo-balada contra o Coritiba durante o ano inteiro, valho menos do que aqueles aproveitadores sempre ovacionados pela moderna diretoria. É assim que ela prepara nosso espírito para o derby.
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27 Outubro 2009
Parabéns para O cara
O aniversário deste ano do presidente Lula não poderia passar batido e, fosse este um país em que a mídia não doutrinasse a opinião pública a partir dos interesses de uma minoria elitista, o Brasil deveria estar em festa. No ano em que apaga 64 velinhas, Lula trouxe ao Brasil os Jogos Olímpicos e, com isso, consolidou sua posição de político mais influente no mundo. Foi o coroamento de um governo que ainda tem um ano e meio de duração e que pretende, além de fazer o brasileiro tomar café da manhã, almoçar e jantar todo dia, entregar uma pátria de verdade a seu povo.
Em 2009, Lula nadou de braçada e repeliu qualquer tentativa de crise que a imprensa golpista criou. Se em 2006 ainda havia ecos de resistência a quem mais investiu em políticas sociais e na inclusão da base da pirâmide na sociedade, agora ele quebra recorde atrás de recorde de aprovação. O melhor de tudo é perceber a humildade em reconhecer os feitos, o que deixa a elite branca com os cotovelos ardendo de dor. Imaginem se FHC - mas é preciso imaginar muito - conseguisse popularidade similar a de Lula? É a mesma imagem que a daquele teu colega de trabalho que mora em Higienópolis e que vive a arrotar a arrogância palatável aos paulistanos de classe média e/ou alta...
A fase anda tão boa que até mesmo o ímpeto de secador do Corinthians anda enfraquecido. O alvinegro mandatário comemorou os dois principais títulos do futebol brasileiro disputados no primeiro semestre, um deles ganho invictamente. Aqui também cabe lembrar a constante analogia que fazemos entre o anticorinthianismo e o anti-lulismo (representações máximas da ojeriza ao povão) para dar ainda mais ênfase ao significado dessas conquistas. Noves fora, reconheçamos: é bom saber que o presidente desse país - como nunca na história - irá comemorar seu aniversário tomando uma cachaça e pitando um tranca-peito, como qualquer cidadão honesto.
Depois do sucesso de ProUni, Bolsa-Família, Pré-Sal, Luz para Todos, Minha Casa Minha Vida, Olimpíadas 2016, PAC e o Plano de Desenvolvimento da Educação, entre outros, Lula pretende, no último ano de seu mandato, unificar tudo isso em um conjunto de leis, além de integrar o Brasil com internet de banda larga. Aos que, mesmo assim, odeiam a idéia de um operário - aquele que sempre foi chamado de analfabeto despreparado e que, mesmo sem falar inglês, se tornou referência mundial - tendo fenomenal desempenho, faço aqui o apelo. Deixem a birra pessoal de lado por um segundo e avaliem, fria e coletivamente, o que significaram todas as mudanças estabelecidas a partir de 2003. Para ajudar, é o mesmo exercício que temos de fazer quando julgamos o papel de grande estadista de Getúlio Vargas na criação da CLT e da Petrobrás, apesar de sua ditadura do Estado Novo (que, diga-se, permitiu instaurar a própria CLT em prol dos trabalhadores).
Daqui 30 anos, não haverá um brasileiro que não se lembre de Luiz Inácio Lula da Silva com orgulho. Se houver, não é brasileiro convicto.
26 Outubro 2009
O Corinthians e seu povo
Nenhuma palavra será dita sobre outra apresentação vexatória em casa, a terceira derrota no Pacaembu em quatro jogos. Contando o empate diante do Botafogo, são onze pontos perdidos - um a menos que a diferença entre nós e o líder do campeonato - que nos colocariam na briga pelo caneco. Isso, obviamente, se os vagabundos tivessem feito apenas e tão somente a obrigação em campo. Mas repito, não vou falar nada sobre o jogo.
Cheguei meio cedo ao Templo Sagrado no último domingo e resolvi aguardar o Janeiro na Praça Charles Miller, aproveitando para observar o ambiente antes da partida. Fiquei ali pelo jardim redondo, logo na entrada do Portão Principal, tomando algumas cervejas. Assim que me abundei no banco de concreto, a primeira cena curiosa. Ao meu lado, uma família de caipiras bastante alterados. Eis que chega o patriarca, torto de bêbado e feliz por ter dado uma entrevista para a globo. Ignorem o fato dele usar aquela bosta de camisa roxa que em nada representa o Corinthians, porque o cabra, além de tudo, foi um tremendo boa-praça.
O tiozinho logo sacou uma senhora que estava no mesmo banco que a gente. Corcoviando, ele escorreu para o lado da "moça" e ofereceu uma lata de Brahma - detalhe: todos os outros bebiam a intragável Itaipava no latão, por ser mais barata. Papo vai, papo vem, o véio contou a história da falecida esposa e a "moça" desabafou sobre a perda do ex-marido (ela havia se separado, mas estava triste com a morte do traste, vai entender). Em cinco minutos, o Seo João, como era chamado pelos netos, conseguiu o telefone da dita cuja e, pasmem, marcou um tititi posterior. Um dos moleques não se conteve: "quando eu tiver sua idade, quero ser igual a você!" E todos gargalharam.
O mesmo Seo João, depois de ensinar os herdeiros como galantear uma dama, puxou papo comigo contando suas lembranças do título do IV Centenário. "Garoto, eram 60 mil pessoas aqui, sem o Tobogã! Luizinho, Baltazar, Cláudio... Ô timaço! E aí a gente vê esses pernas-de-pau de hoje e fica triste". Aproveitei que ele citou o Pequeno Polegar e perguntei da história dele ter sentado na bola. "Não só sentou como humilhou o zagueiro. Coisa de louco era ver ele jogando, um mirradinho desse tamanho deitando e rolando".
Quando o papo começava a me interessar, os netos do Seo João o tiraram dali porque queriam entrar e, provavelmente, ver o Gordo. Só que não demorou nem cinco minutos e fui abordado por um baita de um criolo, falador à beça, e que vestia uma surrada camisa do Timão. Sem cerimônias, ele veio com aquela boca cheia de dente: "Caralho, e eu nem sabia que tinha corinthiano japonês!" Respondi que já era terceira geração e ele se emocionou: "Tá brincando? Tira aí uma foto comigo, que lá em Santa Rita do Sapucaí" - tinha mineiro a rodo -"ninguém vai acreditar nisso". Foto tirada, o cara ainda agradece: "Porra, e falam que japonês não gosta de preto! O Corinthians mistura tudo mesmo".
Vendo aquele mundaréu de gente, percebi que histórias como essas devem se repetir à exaustão nos momentos pré-jogo. Como disse sabiamente o negrão, a entidade Corinthians é capaz de eliminar qualquer diferenciação ao levar a seu povo a força necessária para acordar cedo na segunda-feira e ir trabalhar, mesmo depois de uma triste derrota. De um jeito ou de outro, as energias se renovam a cada ida ao Pacaembu - por isso o Templo Sagrado. Comove demais a característica inclusiva do futebol (ainda que muitos queiram acabar com ela), ao mesmo tempo que preocupa o fato de serem poucos os jogadores que saibam o significado de entrar em campo vestindo a camisa corinthiana.




